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[Aula 01] - Feijoada




A Feijoada é um cozido brasileiro feito tradicionalmente com feijão preto e uma variedade de cortes de porco. O prato é cozido lentamente e geralmente servido em pequenas porções cobertas com sua própria gordura, proporcionando-lhe um sabor intenso e uma textura rica.


Servida com arroz branco, couve refogada, laranja, farofa e cachaça, caipirinha de limão ou ainda cerveja.


É tradicionalmente preparada aos sábados e domingos no Brasil, pois o feijão leva tempo para cozinhar. Mas em São Paulo, faz parte do cardápio fixo dos restaurantes de rua na quarta e sábado.


Nesta aula, descobriremos a história da feijoada na cultura alimentar brasileira, e como a semana da arte moderna influenciou na propagação desse alimento tão delicioso.


DESMISTIFICANDO A FEIJOADA


Mas como surgiu a feijoada, afinal?


A feijoada ainda carrega uma forte mitologia. Por muito tempo se considerava que a feijoada seria um prato “inventado” nas senzalas.


As pessoas escravizadas cozinhariam o feijão preto (originário) da América com os restos, a carcaça do porco que os senhores de engenho desprezavam e isso seria o que trazia sustança na alimentação das pessoas escravizadas.


Primeiro, acho essencial lembrar que dos ingredientes que compõe a feijoada que comemos hoje, o arroz que veio da Ásia, só passou a ser distribuído no século XIX, laranja também veio da Ásia e o porco só veio para o Brasil após o descobrimento.


Segundo Câmara Cascudo (Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) foi um folclorista, historiador, professor e jornalista brasileiro. Foi um dos mais importantes pesquisadores das manifestações culturais brasileiras. Autor de clássicos do pensamento brasileiro como Cinco Livros do Povo, História da Alimentação no Brasil, Vaqueiros e Cantadores, Dicionário do Folclore Brasileiro e Literatura Oral, Câmara Cascudo é reconhecido como uma dos "pilares da construção da identidade brasileira"), a hipótese do surgimento da feijoada nas senzalas é absurda. Os portugueses não desprezavam essas retalhos, essas carnes. E o que as pessoas escravizadas comiam era basicamente feijão com farinha.

A feijoada (prato com técnica europeia, similar aos vários tipos de cozidos, como os de Portugal , Espanha , França , e outros) teria se desenvolvido no final do século XIX, em restaurantes cariocas. E Câmara Cascudo consagra a origem da feijoada, quando afirma que:

"Uma feijoada completa é tão local quanto a Baía da Guanabara."

Já são 100 anos que essa estória é contada para justificar que a feijoada é um prato de origem africana e nessa aula vou te explicar que não é bem assim.


O mito de que feijoada é de origem africada foi criada em 1920, sustentada pelos modernistas e materializada na semana de arte moderna de 1922, que tinha como fundo "mudar a cara do Brasil".


A questão estética e política era "acharmos a nossa expressão" em vários planos, e nada melhor do que o popular feijão, a evocação do cozido português, dos embutidos e pedaços de porco, além da couve.


Era a comemoração do centenário da independência do país e a ideia era trazer a feijoada como o prato mais brasileiro que existe. Então, podemos concluir que foram os modernistas que projetaram a feijoada como prato nacional. Eles tinham necessidade enorme de novos signos para a brasilidade.


A ideia era trazer a simbologia do preto com o branco, referência às cores do arroz e feijão, que representariam aí a cor da população nacional, o porco vindo dos portugueses juntamente com o emblemático verde e amarelo da nossa bandeira formados pela couve e laranja sem esquecer da farofa de farinha de mandioca, trazida pela população indígena originária.


Criou-se então, uma proposta "cool" para que a classe média pseudo-burguesa pudesse se posicionar e se colocar como "povão".


Após essa manifestação toda na semana de arte moderna, a feijoada foi tratada como símbolo do Brasil, reunindo (miticamente) índios, portugueses e africanos em sua origem, consistindo num dos vários mitos brasileiros de miscigenação racial.

Que a feijoada é maravilhosa e só de falar já dá água na boca, nem é novidade. mas nem de longe ela esteve ou está acessível à mesa de todos os brasileiros ou ainda pode ser considerada nossa comida mais brasileira.


Romantizar a feijoada é ignorar que existia uma hierarquia cruel entre casa grande e senzala, é relativizar a escravidão e as condições que as pessoas escravizadas foram submetidas.


Feijoada é um prato gordo, pesado, que faz com que a gente precise pausar a vida depois de comer. O paradoxo: as pessoas escravizadas trabalhavam de sol a sol, como criariam coisa tão indigesta por vontade própria?


Eles comiam o pão que o diabo amassou; muito difícil falar que essa população pôde contribuir para a dieta nacional.


"Contribuição" supõe liberdade; sem ela não há criação literária, artística ou culinária.


A feijoada deriva do "feijão gordo" enriquecido ao extremo, a ponto de se tornar prato único. Ela só é compreendida dentro do seu ritual: feijão preto e pertences, a caipirinha de cachaça (moeda líquida do tráfico negreiro) e a evocação histórica da nacionalidade.


Continuar a propagar esse mito é ignorar esse tempo tenebroso da nossa história e colaborar com a propagação de estereótipos como o de que a mulher preta é boa cozinheira, por natureza, e tem a missão de encantar o paladar dos brancos - como é com Dona Benta e Nastácia, por exemplo.


Nossas histórias são tão incontáveis quanto os nossos sabores. Brasil é a síntese da antropofagia - consumimos muitas culturas e construímos nossa própria identidade a partir disso.


Uma leitura interessante pra quem gosta dessa temática, é o livro Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freire. Mário de Andrade, em "Macunaíma" também trás esse tipo de conteúdo rico.


 
 
 

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